18.9.16

Bolha de sabão...

O meu mundo é uma bolha de sabão
Sua força é a força da inspiração
Não é preciso perder a alma para ganhá-lo
Nem é preciso ser um deus para criá-lo
Basta prendê-lo na imaginação
Basta ter um bom coração
E ele será eterno enquanto durar
Todavia, é preciso ter cuidado
Suas fronteiras não discernem bem
O céu do inferno
Nem a luz da escuridão...
_VBMello

15.9.16

Bastardo...

O mundo pode te fazer muito feliz
Se você tiver dinheiro...
O mundo é uma prostituta velha
Olho-me no espelho da vida
Examino os sinais da minha face
O descolorido da pele
A tristeza dos olhos
A mudez das palavras
De quem não tem
O direito de falar nada
E pergunto: É como deveria ser?
Vivi a vida que nasci para viver?
Não. Um arremedo de resposta
O vento ecoa e sopra
A minha alma, como o véu
De um lugar santo e sagrado
Se rasga de alto a baixo
O templo do meu ser
Se desmancha no ar
Um anjo cai
Ninguém lamenta
O som da sua queda
Ninguém escuta
Ninguém chora
Todos viram as costas
Diante da solidão
A minha alma
Geme e estremece
O meu coração sabe
É tarde demais
O mundo é uma velha prostituta
E eu sou um filho do nada
Um proscrito
Um pária
Um bastardo
Deus, onde estás?
Onde Deus, está?
Eis a pergunta do cego
O anseio do surdo
E o desespero do morto
Tudo testemunha a presença de Deus
Tudo anuncia a sua presença
Tudo nos chama a ele
A dor, a solidão, o sofrimento
O nosso coração, a nossa alma...
Olhos que enxergam o mundo
Apenas como um prostituta velha
Não conhecerão a Deus
Olhos que enxergam em si mesmo
Apenas um cão bastardo
Não verão a Deus
É preciso amar
É preciso reaprender a ver
É preciso reaprender a sentir
É preciso reaprender a viver
Deus não é Deus de mortos...
_VBMello

13.9.16

Renascido...

Nos antigos dias de sombra e morte
Perdido na noite escura
Quando a minha mãe
Me virava a face
E os meus irmãos todos
Corriam da minha presença

Sem ter a quem me apegar
Nem onde me esconder
Do leão que me perseguia

Fiz da luz das estrelas
A luz dos meus olhos
Fiz do bramir das ondas do mar
O bramir do sangue 
Correndo em minhas veias

Fiz do som do vento 
O som da minha respiração
E das asas dos pássaros
Eu fiz a minha liberdade

Das palavras de Cristo
Eu fiz pão, vinho e mel

E na solidão e na dor
A minha alma se fartou de luz
E o meu coração conheceu a fé
E os meus lábios beberam e verteram
A graça e a suavidade da sabedoria

No chão duro da minha existência
Uma nascente brotou
O céu clareou
A tempestade passou
Um jardim floresceu

Um pássaro cantou... 
E no amanhecer de mais um dia
Eu, pobre miserável, que há muito tempo 
Estava triste e morto, renasci...
_VBMello

30.8.16

Angústia...

Não é somente decepção, esse sofrimento
Que me corrói os ossos e arrasa o meu coração
É mais uma dor de angústia do que dor de decepção
É a dor de um pássaro velho e doente, preso numa gaiola
A minha respiração é como o lamento de um cão amarrado
Quem a pode suportar? Quem pode me suportar?
Já não suporto mais nada, tornei-me fraco e cansado
Para suportar a infinita dor dos outros
Ao doente, viro a cara... lamento a fraqueza do fraco
Como se fosse – e é – a minha própria fraqueza
A leveza da minha alma, como uma flor que brota da escuridão
Nasce de pesos insuportáveis, que ninguém vê, nem imagina
Já não ouso olhar-me, no espelho... não há mais nada para ver
Daquilo que um dia, eu fui... daquela velha alegria
Resta tão pouco... Estou tão vazio e seco de sorrisos
Das antigas lembranças, não faço caso
Do futuro, não faço caso... da vida, desdenho
Da morte, não tenho medo...
Identifico-me com o nada
Cortantes como cacos de vidros
As palavras me transpassam
Como alguém diante da morte
Contemplo os abismos da minha existência
Que dia é hoje? Que mês? Não quero saber
Em dias assim, a minha alma envelhece mil anos
Vago pelas sarjetas de mim mesmo
O pior de mim, aflora... Não me reconheço
Perco o ritmo das palavras
Me afogo nas profundezas da minha alma
A solidão é tudo que há, absoluta, profunda, silenciosa, mortal
Quem sou que? Que ventre doente, me pariu? Grito...
Quem me amaldiçoou, ainda no berço?
Quem me roubou a sanidade?
E Deus, onde será que está? Em mim? Aqui? Onde?
Sou, nessa casa, nesse mundo, nessa vida, nesse instante
Um cão perdido, um pássaro sem céu, um peixe fora d’água
Um homem revoltado, um coração amargurado...
Há um verme oculto sob o brilho dos meus olhos
Uma raiva, uma ira, uma fera que grita declarações de guerra
Um vulcão prestes a entrar em erupção...
Erupção contida por uma única certeza
Mesmo nesse vale de sombra e morte, tudo passa
E não há escuridão, nem coisa alguma, que dure para sempre
Hoje, as trevas... Amanhã, a luz
Hoje, as lágrimas... Amanhã, a alegria...
_VBMello



4.8.16

Fragmentos de humanidade...

E o mundo, essa vastidão de expectativas
Essa fome insaciavel de vida
Que herdamos dos nossos pais
Esse sistema incerto e impermanente
Que agora jaz no Maligno
Essa casa velha e sombria
Cheia de rachaduras, goteiras
E móveis quebrados e mofados
É a prova hereditária 
Da nossa estupidez humana
A marca mais visível e feia
Do nosso caráter
O sinal mais evidente
Da nossa personalidade
O reflexo fosco do nosso semblante
O selo da nossa decadência...

Largados sob a lua vermelha 
Dos dias de inverno
Prescentimos e deduzimos
Nas entranhas da nossa alma
Como um verme carnívoro
Que tudo rói e tudo devora  
Um abismo de trevas
Dormindo um sono leve...

Nas profundezas da nossa alma
Há uma guerra em andamento...


Dos nossos pais, não herdamos
Olhos límpidos, nem alma profunda
Herdamos restos de mundo
Ódios, cobiças, medos
Atrofias do espírito 
Ansiedades e vazios de alma
Fragmentos de humanidade
Promessas de insanidade
Herdamos céus de aço 
E chão de ferro
Coração duro e vazio 
De paz e esperança
Terra seca e improdutiva
Para os doces frutos do amor
A nossa luta, a nossa labuta
É não perder a alma
É aprender a arte de amar
Talvez encontrar uma chama
De graça e poesia
No meio do caos da nossa herança...

_VBMello

Instinto de morte...

A nossa alma está ferida 
Com as feridas e loucuras 
Dos nossos dias e medos
Em algum ponto do caminho
Oculto sob a névoa da vaidade
Da ansiedade e do egoísmo
Nós perdemos de vista
A luz da vida e a graça do amor
.
.
.
Entre o amor e as outras coisas
Preferimos a paixão
Quem nos olha, sabe
Nas coisas do coração
Sempre escolhemos
O caminho mais fácil
.
.
.
Da decepção e do arrependimento

O antigo e velho caminho
Batido pelos pés dos nossos pais

É o nosso preferido
É o que melhor conhecemos
A nossa herança 
A nossa sina
O nosso destino...
.
.

Sim, andamo nos mesmos caminhos
Erro, ilusões e mentiras
Dos nossos velhos pais
Mas nos justificamos
Afinal, somos carne da mesma carne
Osso do mesmo osso
Sangue do mesmo sangue
E a nossa carne
Como a carne e o sangue
Dos nossos velhos pais
É fraca, demasiadamente fraca
Comemos no mesmo prato
As mesmas sobras de esperança
Os mesmos restos de felicidade 
Sonhamos os mesmos sonhos
Temos os mesmos pesadelos
Cometemos os mesmos pecados
Mas nos desculpamos
Afinal, a carne é fraca...
.
.
.
Temos desculpas prontas, para tudo
E só o que sabemos, porque sentimos
É que a nossa fome, não cessa nunca
Por dentro e por fora, queimamos e ardemos
Mas o fogo que nos queima, não nos ilumina
Mesmo em chamas, permanecemos em trevas
Mesmo cheios e fartos de tudo
Permanecemos vazios e famintos...
.
.
.
A nossa geração
É uma geração doente
Nas pessoas, nos animais
E em tudo que vive
Oh, horror! Causar dor
É o que nos fascina
Por qualquer coisa
Gritamos e declaramos guerra
Mas na frente de batalha
Trememos e nos acovardamos...
.
.
.

É, nós somos livres
Completamente livres
Demasiadamente livres
Podemos ir e vir
Podemos pensar e falar
Podemos tudo consumir 
E tudo devorar
Sem parar
Sem vomitar
Podemos rir 
E podemos chorar
Mas existe ainda, escondida
Disfarçada sob o brilho do olhar
Uma escravidão habitando
As profundezas da nossa alma...
.
.
.
Em algum lugar sombrio
Nos recessos inconscientes
Da nossa alma, coração e mente
Gerando, crescendo e germinando 
O caos de um tempo futuro
Dorme, sono leve e perturbado
Um terrível instinto de morte
Vulcão prestes a estourar
E entrar em erupção...
.
.
.
Às vezes, de uma hora para outra
Como uma represa que arrebenta
Ele rompe a crosta da nossa paz
E sem aviso, acordamos com ele
Dançado à flor da nossa pele
Os nossos olhos perdem o brilho
As nossas palavras perdem a leveza
A terra treme e até os amigos
Fogem da nossa presença
E então, triste realidade
É que descobrimos
Quem nós realmente somos
E sentimos vergonha...

_VBMello