Fingimento...

O mar é tempestuoso
As águas escuras
O mergulho é profundo...
Na alma
Que é sem fundo
Tão alta quanto o céu
Tão imensa quanto o mundo
O fardo é pesado
E arrasta para o fundo
Do mundo
O fôlego é curto
A estrada é estreita
Na espreita do amanhã
 A vida é curta
A esperança é sem fim
A vida é morta
Sem volta
Se não volta
Sem revolta
Do fundo do mundo
Porque tudo que volta
Do mergulho profundo
No fundo do mundo
No fundo da alma
Volta modificado
Encantado
Já que foi para mudar...
Não de lugar
Mas de alma
Para parir a si mesmo
Não de corpo
Mas de espírito
Que partiu
Atravessou desertos incertos
E de peito aberto
A escuridão que o ameaçava tragar
Enfrentou
E renasceu
Mas aquele que foi
E voltou
E ainda é o mesmo
Que na face
As marcas da sua alma
E da sua poesia
Explícita
Não traz
Não pariu
Não concebeu
Não mergulhou
Não engendrou
Outros pensamentos
Outras palavras
Outras ações
Não venceu
Perdeu
Ainda é o mesmo
O que não é
Que sempre foi
No fundo dos seus olhos tristes
A mesma ausência
A mesma carência
De brilho no olhar
Nunca partiu
Nunca pariu
Nunca sorriu
Nunca se viu
Oh, meu Deus!
NUNCA SE VIU!
Fingiu que partiu
Fingiu que sorriu
Fingiu que pariu
Fingiu que voltou
Fingiu que se revoltou
Nunca saiu do lugar
Nunca existiu...
Nunca pariu seu próprio ser
Esse não-ser
Que não partiu
V.B.Mello.