Quase triste...quase só...quase feliz...




Velhas recordações 
De um tempo morto
Perambulam - vivas
Pela superfície caótica
Da minha mente triste
*
Ressuscitam sentimentos
E lembranças mortas
De antigas feridas
E trazem à memória
Sombras de noites 
De angústias sem fim
*
A revolta, a fúria, a tristeza
As perdas, as humilhações
A indiferença e a zombaria...
O corpo e a alma agonizam
Sob o fardo dessas recordações
A realidade nua e crua
É exaustiva demais
Para o meu fraco coração
*
Mesmo depois de tanto tempo
As ferida ainda estão abertas
E as recordações ainda
São tão insuportáveis
Que eu prefiro pensar 
Que tudo foi um sonho
Fecho os olhos e finjo 
Que aquelas são dores
Que nunca aconteceram
*
Mas não é coisa fácil
Enganar a si mesmo
*
O meu corpo - velho sofredor
Não se deixa convencer
Pelas minhas mentiras
Dentro da minha alma
Mesmo quando é dia claro
Levo comigo, a escuridão da noite
O passado dolorido, ainda está comigo
*
Lá fora... Vejo pela fresta da janela
O sol brilha num céu azul aguado
*
O dia está amanhecendo...
Escuto alguém rindo
Encolho-me num canto
Cubro a cabeça
Tapo os ouvidos
Faço cara de desprezo
*
Nas profundezas do meu coração
Um vulcão ameaça-me com suas erupções
Dou de ombros... 
Que se dane... 
Mostro-lhe o dedo médio em riste
Filho da puta!
Quase grito, mas me contenho...
*
Não sou homem de xingamentos...
Sou homem de tormentos calados
Perdoem-me o desabafo...
Ora, vá para o inferno!
*
Metade águia
Metade serpente...
Um dragão medonho
Metade vida
Metade morte 
Habita dentro de mim...
Narciso que se enamora
E se devora...
*
Bandos de pardais se amontoam nos galhos de uma árvore velha
Que sem nunca ter produzido uma flor ou sequer um fruto mirrado
Sofre e morre bem na frente da minha janela
Tenho grande compaixão por essa miserável árvore estéril
Somos tão iguais... Somos filhos do mesmo nada
Metáforas um do outro... Eu a plantei
Como eu, ela foi uma criança viva e feliz
Mas então, algo aconteceu...
Agora secamos e morremos
Abraçados um na sombra do outro
Espinheiros recíprocos...
*
Oh, meu Deus!
Como um rato trancado dentro de uma caixa escura
Apreensivo...
O coração pesado de ansiedades
Ouço janelas que batem e portas que rangem
Ouço vozes e passos...
A tristeza vem e me abraça
E me consola...
*
Meu espirito agoniza e chora
Indiferente...
Sem me levar com ela, a vida segue cega
Mostro-lhe o dedo médio ereto
Grito-lhe um palavrão
E viro-lhe as costas
Que vá para o inferno!
*
A natureza se volta contra mim
Flores desabrocham no jardim...
As ondas de um mar cristalino
Forças que me sobrecarregam a alma de melancolia
Quebram mansamente na areia da praia
Não me importo
Não me importa a profundeza do mar...
Hoje o meu destino é a solidão do deserto
*
Carros passam melancólicos...
O som de uma TV invade as profundezas da minha alma
Institivamente fecho na cara do mundo as portas dos meus abismos
Estou só...
Eu já era para estar acostumado...
Mas não estou
*
Fui gestado há dez mil anos atrás
Num útero cheio de cacos de vidro
Vergonha...
Raiva...
Decepção...
O coração clama por vingança...
A esperança tornou-se
Ânsia de vômito...
*
Imaturidade!
Imaturidade!
Grita uma voz sofrida dentro de mim...
Imaturidade!
Imaturidade!
*
Recolho-me num canto escuro...
Dentro e fora da alma o silêncio é tudo que há
O dedo médio sempre em riste...
É a minha defesa contra as dores da vida...
Uma porta se abre...
Se dentro ou fora da minha alma, não sei dizer
Deito-me e viro a cara para a parede...
Fecho os olhos, cochilo...
*
Acordado, quase durmo...
Rolo na cama de um lado para outro
Pesadelos me sufocam a noite
Meus olhos ardem de insônia
Diante de mim...
Oh, horror...
Os fragmentos da minha vida
Amontoam-se como os restos de um naufrágio
Estou de partida para uma longa viagem
*
Fecho os olhos e arrumo as minhas coisas
Vou por caminhos estreitos
Por onde se anda melhor sozinho
De olhos fechados e coração aberto
Não levo bagagem nem dinheiro
Levo apenas a minha alma... E mais nada
Deixo-me para trás...
E sigo sozinho até de mim mesmo
Vou pelo caminho das estrelas
Levo fomes que anseiam por instantes de saciedade...
*
Não levo, nem deixo saudades...
Recolho e amontou na areia da praia da minha alma
Os restos do naufrágio da minha vida
Restos de sonhos
Pedaços de desejos
Fragmentos de vontades abortadas...
Refugos de vida
O passado, o futuro - e o agora... Tudo
*
Ateio fogo...
As chamas se elevam ao céu
Que me chama
Que me reclama
Tarde demais! Tarde demais! Grito
A minha vida queima...
Os meus sonhos se desfazem em cinzas...
O meu coração agoniza
Sacrifico tudo em holocausto a Deus
Em torno da fogueira das vaidades da minha alma
Danço uma dança macabra 
Danço grito, choro...
Rolo no chão...
Morro...
Renasço...
Torno a morrer...
*
Capturado pela parte sombria da vida
Tombo diante do nada de uma vida desistida
Minha mãe ri... Meus irmãos zombam
Meus filhos morreram todos
E eu morri com eles
*
Agora sou alma que vaga sem destino...
Sou sombra que segue pelo caminho estreito
Sou a vida que se perdeu no colo da mãe...
Sou o suicida indeciso parado na beira do abismo
A espera de um milagre?
Sou Adão seduzido pela Eva seduzida
E a serpente gargalha desse meu espetáculo medíocre...
Sou abismo desejante de altura...
Sou morte desejante de vida
*
Sou anjo caído – traído
Sim... 
Chamam-me anjo caído, os meus inimigos
Todavia, nada sabem de mim...  
Nada sabem de anjos
Dizem que estou morto...
Mas nada sabem da morte
*
Ah! Num momento de liberdade
O coração parou... aquietou
Agora eu durmo profundamente... , e sonho
Então é que eu vivo...
Um anjo vem e me toma pela mão
Zomba de mim, certamente
E me leva pelos seus caminhos de luz
Finjo que vou com ele
Cruzamos estrelas
Cruzamos mundos
Cruzamos céus
Desço com ele até os confins da minha imaginação
Busco a mim mesmo... nele
*
Ele me olha dentro dos olhos... 
Por breve momento vejo-me nele
Mas ele não se vê em mim
O maldito som do relógio me desperta da minha ilusão
Ouço som de pássaros cantando...
O dia está amanhecendo...
Levanto-me... 
É dia... 
Mais um dia
*
A vida chama... 
Preciso correr
Para não morrer
Estou atrasado de novo
Ponho os pés na rua
O meu coração estremece
A multidão me envolve
*
Forço as vistas, firmo os olhos
E procuro sem encontrar
Até as maiores distâncias que posso ver
Não vejo anjos
*
Vejo apenas lobos de outros lobos
Serpentes que rastejam ao meu redor...
E somente então, por breve instante
É que me dou conta de que me tornei
Um homem quase triste...
Quase morto...
Quase feliz
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VBMello