A balada de um [bom] combate...


O mundo pode te fazer muito feliz, se você tiver muito dinheiro...

Com efeito, eis a verdade, que, mais de uma vez, já feriu a todos nós: No lado escuro da vida, ter uma alma pura e sincera, não basta.

A felicidade do mundo, exige mais. Exige prata e ouro, a sua luz, e uma boa dose de mentira, o seu tempero...


Sempre à porta do nosso coração,anunciando alguma nova tentação,oferecendo alguma velha ilusão,o mundo é uma prostituta sorridente,que vende os seus prazeres e ilusões,a preço de caráter e alma...Tudo em suaves prestações...E a gente só nota o prejuízo,infelizmente,quando já é tarde demais para se arrepender e voltar atrás...

Eu,soldado desse vasto campo de batalha,prisioneiro de uma atroz solidão,olho-me no espelho vazio da minha vida,sondo o meu destino, procuro os sinais da minha predestinação.Um a um, examino os sinais e as feridas da minha face...Constrangido,revoltado e ameaçado pelos vazios da minha existência de lutas,vejo as cicatrizes dos meus muitos pecados,e sinto a dor da minha profunda incredulidade...Senhor...Onde,estás?...Escuta a minha oração...Ajuda-me na minha pequena fé...

Examino-me...O descolorido da minha pele,anúncio tenebroso de uma velhice triste,vazia e prematura,testemunha contra a verdade dos meus poucos sorrisos tímidos...Nenhum soldado em batalha,tem motivos para sorrir,só se for muito tolo...

Sim,oh,horror...tristeza dos meus olhos e a soma das palavras de quem não tem o direito de falar nada,eis a minha herança...


Viro-me ao avesso,e me pergunto:É como deveria ser,a minha vida? Trai a minha vocação,fugi à luta,ou vivi a vida que nasci para viver?

Não,não viveu...Um arremedo de resposta,o vento ecoa e sopra nos meus ouvidos... A minha alma é perfurada,esfaqueada e perfurada pela indiferença da existência,que já desiste,cansada de tantas batalhas perdidas,desanimada de sonhar para outro realizar...


Sem ter para onde ir,ou fugir de si,a minha alma,como o véu de um lugar santo e sagrado,rasga de alto a baixo...As ilusões do templo do meu ser,diante dos meus olhos incrédulos,se desmancham no ar...

No campo de batalha,um homem traído por um rei,cai e agoniza sozinho,mas ninguém lamenta a sua queda...Ninguém corre em seu socorro...

O som grave da sua queda,ninguém escuta...O seu lamento e a sua dor,ninguém quer ouvir...

Dia de dor,dia de pavor...Nem no céu,nem na terra...Oh,horror,ninguém fez um minuto de silêncio...Alguém lhe oferece um punhado de pedras,ao invés de um pedaço de pão,e isso é tudo...Mas a sua fome não é fome de pão,é fome de justiça...

O abismo festeja a indiferença dos homens...

A sua morte, ninguém chora...Todos lhe voltam as costas...Ele agoniza em solidão...

Cessa a visão
Cessa a oração
Cessa a esperança
Permanece a traição...

A minha alma,esse campo de batalha onde os meus ancestrais ainda lutam entre si,ao som do rilhar de dentes,fogo e espada,geme e estremece...Sob a pesada escuridão do céu silencioso,que paira acima da minha cabeça,o meu coração sabe e não se ilude mais,já não crê em profetas,nem perde tempo com profecias tristes e vazias...É tarde demais...O tempo da felicidade,já passou...

Resta ainda,talvez,a fuga para as intermitências do mundo,a escolha primeira e também a escolha derradeira dos derrotados e das almas cansadas,vencidas e desesperadas...

Mas o mundo é uma velha prostituta,e eu sou um filho do nada...Um proscrito,um pária,um bastardo...Nada tenho para barganhar...

Olho ao redor...Ainda seguro a espada...E digo para mim mesmo:Aqui tombo, aqui caio,não porém,sem luta e morte...não, entretanto,contra a carne e o sangue...Sim,a minha luta é outra,e a minha vitória,se vier, virá da minha fraqueza,pois quando sou fraco é que sou forte e destemido. Ah,eu aviso, escreve o que eu digo:Não faça pouco caso de um homem que perdeu o medo da morte,ele pode sobreviver aos piores desertos e sofrimentos...Veja!Aqui,as minhas cicatrizes,elas falam por mim...Sou um homem de muitos desertos e batalhas...Já persegui e fui perseguido.Já amaldiçoei e fui amaldiçoada.Já sofri e fiz sofrer...Já venci e fui vencido...Já prometi e não cumpri...Já amei e odiei...Já chorei e sorri...

Elevo os meus olhos para o céu e murmuro uma breve oração:Deus,onde estás?

Eis a pergunta do cego,o anseio do surdo e o desespero do homem ameaçado de morte...

O silêncio testemunha contra a minha fé...Todavia,não ando pelo que vejo,mas pelo que creio...Tudo em mim,grita e chama por Deus. Tudo em mim,sem exceção,é oração, a minha dor,a minha solidão,o meu sofrimento...

O meu coração,a minha alma,os meus pensamentos e o meu aflito coração...

O mundo é uma prostituta velha,que nada sabe sobre o paradeiro de Deus...

Olho a escuridão nos olhos,e não curvo a minha cabeça...A noite é escura e a solidão floresce no tutano dos meus ossos...Olho-me nos olhos,mas não me vejo.Um véu de lágrimas, como um temporal no mar,me oculta de mim...O meu coração estremece no meio dos gritos da batalha...

Sozinho na voragem do mar,sigo o meu caminho incerto...Indo e vindo,perdido na espiral da existência,parando aqui e ali,pobre cão bastardo,farejando a eternidade,estendo a mão,tocando de leve as vestes de Deus...

Os meus olhos tristes,marejam muitas lágrimas.Mas nas profundezas do meu coração,onde ninguém chega,um novo dia amanhece...Brilha ainda alguma luz nos abismos escuros da alma,e caído sob a marcha da tristeza e do desamparo,guardo ainda uma certeza:

É preciso amar
É preciso reaprender a ver
É preciso reaprender a sentir
É preciso reaprender a viver
Deus,dizem,não é Deus de mortos...
É preciso viver...
VBMello